The most detailed representation of a human cell to date, obtained by radiography, nuclear magnetic resonance and cryoelectronic microscopy. Every human being is made of 30–40 trillion of these galactic gems.

INTERSER

Tradução livre feita por mim, com base no texto Interser escrito por Daniel Christian Wahl. Esse texto será usado como base para o Grupo de Estudos realizado pelo Instituto Amuta dia 28/04 (participe).

A prática do pensamento sistêmico é a prática de pensar sobre o mundo através do conceito de um sistema (Checkland, 1981). Essa prática pode nos ajudar a tornar as interações dinâmicas e complexas mais compreensíveis, a moldar iniciativas sábias e ações apropriadas. A prática de olhar para um conjunto de participantes e suas relações e defini-los como um “sistema” cria uma infraestrutura dentro da qual podemos fazer perguntas mais profundas sobre as estruturas e comportamentos que influenciam essas relações. Ao definir o limite de um sistema, não estamos isolando esse “sistema em questão” de todos os outros, mas sim criando uma estrutura para explorar como ele pode estar relacionado aos sistemas maiores que o contêm. Também podemos perceber que nosso “sistema em questão” poderia, por sua vez, ser composto por vários outros subsistemas.

Com bastante frequência, o pensamento sistêmico é equiparado a um conjunto de metodologias muito específicas, como desenhar diagramas de influência, loops de feedback e modelos de sistemas de fluxo de estoque. Todos eles são ferramentas da “caixa de ferramentas” do pensamento sistêmico, mas equipará-los ao sistema como um todo seria o mesmo que igualar um conjunto de pincéis, um cavalete e uma tela à arte da pintura. Mais do que um conjunto de ferramentas, o pensamento sistêmico é uma arte, uma dança criativa e complexa, que tem o poder de transformar a nós e ao nosso mundo. Isso nos faz ver a nós mesmos, e ao nosso mundo, com olhos diferentes.

Como apontou o poeta David Whyte: A prosa lida com palavras que descrevem uma experiência, enquanto a poesia provoca uma experiência por si mesma. Deixe-me oferecer a você a visão do poeta Thích Nhất Hạnh sobre o pensamento sistêmico como um todo:

ph: angele kamp

Se você é um poeta, verá claramente que há uma nuvem flutuando nesta folha de papel. Sem uma nuvem, não haveria chuva; sem chuva, as árvores não podem crescer; e sem árvores, não podemos fazer papel. A nuvem é essencial para que o papel exista. Se a nuvem não está aqui, a folha de papel também não pode estar aqui. Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel inter-existem. “Interser” é uma palavra que ainda não consta do dicionário, mas se combinarmos o prefixo “inter” com o verbo “ser” teremos um novo verbo, inter-ser. Sem nuvem não podemos ter papel, por isso podemos dizer que a nuvem e o papel inter-são.

Se olharmos mais profundamente para esta folha de papel, podemos ver a luz do sol dentro dela. Se a luz do sol não estiver presente, a floresta não pode crescer. Na verdade, nada pode crescer. Nós também não podemos crescer sem a luz do sol. E por isso, sabemos que a luz do sol também está nesta folha de papel. O papel e a luz do sol inter-são. E se continuarmos olhando, podemos ver o lenhador que cortou a árvore e levou para a serraria para transformá-la em papel. E vemos o trigo, sabemos que o lenhador não pode existir sem a sua ração diária de pão, por isso o trigo que se transformou em pão também está na folha de papel. A mãe e o pai do lenhador também estão lá. Quando olhamos desta forma, vemos que sem todas essas coisas, esta folha de papel não pode existir.

Olhando ainda mais profundamente, podemos nos ver nesta folha de papel. Isso não é difícil de ver, porque quando olhamos para a folha de papel, a folha de papel faz parte da nossa percepção. Sua mente está aqui e a minha também. Então podemos ver que tudo está aqui com esta folha de papel. Você não pode encontrar uma coisa que não esteja aqui, o tempo, o espaço, a terra, a chuva, os minerais do solo, a luz do sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste com este papel. Então eu acho que a palavra interser deveria estar no dicionário. “Ser” é interser. Você não pode ser sozinho. Você tem que interser com todas as outras coisas. Esta folha de papel é, porque todo o resto é.

Suponha que tentemos devolver um dos elementos à sua fonte. Imagine que devolvemos a luz do sol ao sol. Você acha que esta folha de papel seria possível? Não, sem a luz do sol nada pode ser. E se devolvermos o lenhador à sua mãe, também não teremos a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é feita apenas de elementos “não-papel”. E se devolvermos esses elementos não-papel às suas fontes, então não pode haver papel algum. Sem os elementos “não-papel”, como a mente, o lenhador, a luz do sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fino que seja esse papel, ele contém tudo que há no universo dentro dele.

Thích Nhất Hạnh (1988: 3–5) || [Reproduzido de The Heart of Understanding: Comments on the Prajñaparamita Sutra com permissão da Parallax Press, Berkeley, Califórnia, www.parallax.org]

Thích Nhất Hạnh nos oferece um exemplo magnífico de como ver e compreender sistemas inteiros. Começando com uma simples folha de papel, ele nos oferece uma imagem da interconexão fundamental de nosso sistema planetário, que agora também estamos começando a compreender por meio da física, da ciência da complexidade, da ecologia e da ciência dos sistemas terrestres. Somos participantes de um todo dinâmico dentro do qual nos definimos e criamos nossa realidade através de nossas relações. Ser é interser.

ph: andre mouton

Em muitos aspectos, a palavra “interser” descreve uma mudança na percepção de si mesmo e do outro que ocupa um lugar central na co-criação de culturas humanas regenerativas e de uma presença humana sustentável na Terra. A inovação transformadora para culturas regenerativas impulsiona a mudança de uma sociedade de crescimento industrial, baseada na extração e na exploração dos recursos naturais e moldada pela “narrativa da separação”, para uma sociedade que sustenta a vida, baseada em processos agrícolas e industriais regenerativos e composta pela “narrativa interser”. A palavra “interser” descreve a transformação para uma nova narrativa da relação da humanidade com uma comunidade viva mais ampla e sua dependência com os sistemas planetários que sustentam a vida.

Aqui estão algumas perguntas que poderíamos usar para catalisar conversas sobre essa transformação em grupos comunitários, salas de diretoria de empresas e departamentos governamentais:

P: Em que medida a forma como estamos formulando o problema e propondo soluções é moldada pela “narrativa da separação” e como poderíamos reformulá-los dentro da “narrativa do interser”?

P: Como nossas necessidades reais e percebidas mudam à medida que mudamos de uma perspectiva de separação para uma perspectiva de “interser”?

P: Como propomos soluções moldadas pelo “interser’’ e avaliamos seus efeitos sobre uma comunidade viva mais ampla e sobre a vida das gerações futuras?

Este subcapítulo é um trecho do livro Designing Regenerative Cultures de Daniel Christian Wahl, publicado em espanhol pela EcoHabitar, 2020.

O livro Design de Culturas Regenerativas foi editado em português pela Bambual Editora e está disponível no site https://bambualeditora.com.br/

Originally published at https://www.linkedin.com.

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Facilitadora e Consultora // Apaixonada por interações sociais e por experiências de aprendizagem / Pensadora livre que não se satisfaz com explicações simples.

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Marina Galvão

Marina Galvão

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